domingo, outubro 22, 2006

Lúcifer : Da Luz às Trevas

Lúcifer aparece apenas no Velho Testamento, em Isaías 14:12-14: e em mais nenhum outro lugar: "Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como fostes lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias em teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo."

O primeiro problema é que Lúcifer é um nome latino. Então como ele foi aparecer em um manuscrito hebraico? Que nome hebraico recebe Lúcifer neste capítulo de Isaías que descreve o anjo que caiu e se tornou o senhor do inferno?

No texto hebraico original não é sobre um anjo caído, mas sobre a queda de um rei babilônico, que durante toda sua vida só fez perseguir os filhos de Israel. Em nenhum momento é mencionado Satã ou Lúcifer no sentido de ´seres diabolicos´ ou algo do gênero. Como pode ser visto em Isaías 14:4-5 e 14: 16-20:

"...então proferirás este motejo contra o rei da Babilônia e dirás: Como cessou o opressor! Como terminou a tirania! Quebrou o Senhor a vara dos perversos e o cetro dos dominadores". "Os que te virem te contemplarão, hão de fitar-te e dizer-te: É este o homem que fazia estremecer a terra e tremer os reinos? Que punha o mundo como um deserto e assolava as suas cidades? Que a seus cativos não deixava ir para casa? Todos os reis das nações, sim, todos eles jazem com honra, cada um no seu túmulo. Mas tu és lançado fora de tua sepultura, como um renovo bastardo, coberto de mortos transpassados à espada, cujo cadáver desce a cova e é pisado de pedras."

O nome Lúcifer deriva do latim lucem ferre, aquele que traz a luz, portador da luz. Em grego, foi traduzido como phosphorous, também com o mesmo significado. No texto hebraico, a expressão usada para descrever o rei babilônico antes de sua morte é ´´heilel ben-shachar ´´ou הילל בן, que pode ser melhor traduzido como ‘o brilhante, filho do amanhecer’. O nome evoca o brilho dourado das vestes e dos acessórios de um rei orgulhoso, assim como o Rei Luiz XIV, da França, é apelidado de ‘Rei-Sol’.

Para muitos este monarca que serviu de fonte do mito de Lúcifer teria sido rei da Babilônia Nabucodonosor II ( 604 /592 a.C ) que invadiu o o Reino de Judá, destruindo no processo Jerusalém e seu Templo em 587 a.C bem como também conduzindo uma deportação em massa da população habitante do local que sobreviveu ao massacre para servir como escravo em cativeiro em Babilônia.

Dirão alguns que o Profeta Isaías tendo vivido entre 740 e 681 a.C não poderia estar relatando fatos que lhe foram posteriores a sua morte, ocorre que para teoria da crítica bíblica moderna foram ´´dois Isaías´´ que escreveram o livro, tendo o segundo vivido por volta de 550-539 a.C quando havia a situação do Cativeiro em Babilônia e justamente por isso mencionado tal coisa na narrativa do Evangelho.

Ocorre ainda que chegou a Bíblia não foi bem esta hebraica menção ´heilel ben-shachar´/‘o brilhante, filho do amanhecer’, mas sim ´ heosphoros´/ ´aquele que trás ou aquele que carrega a luz ´. Sim , porque o texto bíblico corrente se baseia na tradução numa versão grega ( chamada Bíblia Septuagenita ) que depois foi vertida para latim ( Vulgata Latina ) realizada lá para o ano de 380 d.C por São Jeronimo.

Mesmo prestando os devidos louvores ao esforço herculeo de São Jeronimo e exaltando seus méritos intelectuais o fato é que a tarefa lhe era ingrata pelo fato de que além dos rigores próprios exigidos para fazer uma boa tradução cabia a ele se preocupar com detalhes no texto que poderia gerar certos ´´embaraços´´ à luz da doutrina da Igreja. Seja como for como resultado final vemos que de maneira incompreensível ele transforma o que seria meramente o título de um rei no nome de um anjo !!! Eis o nascimento de Lúcifer / o portador da Luz.

Então dali em diante Lúcifer se tornou um anjo desobediente, expulso do céu para reinar eternamente no inferno. Teólogos, escritores e poetas se aprofundam no mito da queda e dão mais forma e conteúdo a imagem luciferiana e ele se torna a própria personificação do Mal Absoluto. Agora , ironicamente, ‘o brilhante’ do hebraico se tornou o Príncipe das Trevas.

Mas por que a história de um rei babilônico ‘filho do amanhecer’ acabou justamente associada com o próprio Senhor dos Infernos? Na época da tradução da bíblia, havia na mente das pessoas uma variedade muito grande de lendas cujos significados se distorceram ao se mesclarem com os conceitos cristãos. Já havia, nesta época, por exemplo , muitos outros mitos sobre personagens que eram também associados à idéia de diabo , demonios, inferno e etc

Diz uma desta lendas , por exemplo, de que Lúcifer na condição de ´ o anjo de Luz´ possuía uma esmeralda em sua testa que representava o Terceiro Olho. Supostamente quando ele se rebelou e desceu aos mundos inferiores, a esmeralda partiu-se, pois sua visão passou a ser prejudicada. Um pedaço ficou em sua testa, dando-lhe a visão deformada que foi a única coisa que lhe restou, e do outro pedaço, que foi trazido à terra pelos anjos que permaneceram neutros na rebelião, foi esculpido o Santo Graal. Mas isso pouco tem a ver com o ´heleyl´ hebraico e como diz Michael Ende*1 isso é ‘uma outra história, e deverá ser contada em outra ocasião’.

*1 - escritor alemão , autor de ´A História Sem Fim´